entre o tudo e o nada, algures nos caminhos que nos conduzem a nenhures ou a lugar algum. até lá chegar, o desequilíbrio e a vertigem de não saber para onde se vai. nem como. nem porquê.

escolhas. e possibilidades. e a vida não passa disto.

 

olhar e palavras de Joana Sousa

para acompanhar com Birdy | 1901

 

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Disse-te uma vez que era muito má com as palavras. Tu não acreditaste. Afinal, conquistei-te com palavras. Daquelas escritas. São o meu forte, acabaste por perceber isso. Mas só essas, porque as outras, que se partilham olhos nos olhos, custam-me a ganhar forma. Não sei dizer porquê. Não sei se quero dizer ou saber porquê. Não sei. Há muita coisa que não sei, por entre tudo aquilo que aprendo. Sei que gosto de ti, que queria estar contigo de uma forma que até agora não consegui. Não dá para carregar num botão e fazer com que as coisas aconteçam. Não consigo. Agora não. Pareceu-me que sim, mas o tempo não me confirmou as expectativas. Há nãos a mais nestas palavras. Mas falta um. Não deixo de gostar de ti.

 

olhar de João Paca | palavras de Joana Sousa

para acompanhar com a Mixtape 7 do Pedro Esteves

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Estava farta de ler sobre a saudade. Nos poemas, nas prosas. Ouvia falar sobre isso. Escutava os fados e não percebia. Mas para mim era uma realidade distante, que não fazia muito sentido. Estava longe de compreender do que se tratava. Um mito urbano, talvez. E senti a saudade por perto quando passei a estar longe das minhas pessoas. Senti a saudade entranhada na pele, a dar cor às lágrimas que caíram no dia em que contemplei o forno, com as batatas assadas. As tais que um dia partilhei com quem é meu. Sim, assumo publicamente que sou «proprietária» das minhas pessoas; sem caderneta do registo predial, mas com carimbo eterno no meu coração. As batatas assadas trouxeram consigo o cheiro de quem está longe, os sorrisos, as gargalhadas. Sentir a saudade através da contemplação e do cheiro das batatas assadas no forno constituía um cenário longínquo para mim. Até hoje. Por falar em batatas, são servidos?

 

olhar e palavras de Joana Sousa

para acompanhar com Cesária Évora | Sodade

 

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falas-me dos dias difíceis, das horas de tormenta, de um querer fechar os olhos e esquecer o mundo lá fora. e cá dentro? o que me dizes de esquecer o mundo cá dentro? ignorar o que já não faz sentido e construir outro. outro sentido. melhor, ou então apenas diferente. mas se não quiseres, não te preocupes. vai lá. esquece o que tens a esquecer, ganha (outras) asas. e depois avisa-me quando chegares aqui. e se chegares.

 

olhar de João Paca | palavras de Joana Sousa

para acompanhar com Márcia | pra quem quer

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Diz ela, com a convicção de quem sabe amar e conhece os recantos do amor mais puro e mais superficial. Sim, esses amores todos. Desde que haja amor (epidérmico ou metafísico) ela lá está, na primeira fila, no primeiro momento, a tomar nota, a registar, a sentir, a imaginar. Tem os cadernos cheios de apontamentos, as paredes escritas a lápis de cera, os cortinados cheios de retalhos, os móveis cobertos de lembranças deste e daquele amor. Não são troféus, desenganem-se, são memórias vivas, todo um espólio do ontem que se respira hoje. «Agora? Agora vou a tudo o que tenha amor», disse ela, cansada do cinzento da solidão, da ausência do arco-íris e das mãos frias. E do coração que bate sem ritmo. Se tem amor, ela está lá.  Ela e as suas mãos frias (diga-se que nunca gostou de luvas). Resta saber se a consegues encontrar, pois é esquiva a sua forma de ser e de amar.

 

olhar de João Paca | palavras de Joana Sousa

 

para acompanhar com Florence and the machine | remain nameless

Nota: o título foi roubado no twitter, à @JoannaAzevedo

 

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podia classificar isto como o inesperado na sua acepção mais pura. uma coisa que fica entre a probabilidade e a possibilidade. e a necessidade, sim. ainda há dias o «precisar» foi sentido e consentido. não faz mal, acontece – pensou ele, completamente envolvido naquilo que já era antes de ele saber.  ignorava a verdade das coisas, como quem caminha descalço sem saber que vai encontrar vidro. a graça da ignorância não tem nada de engraçado. mas é graciosa, como se nos oferecesse flores e velasse a realidade com transparências opacas. baças, sem brilho. e não fez mal, aconteceu. ele deu um passo em frente, pisando o chão incerto, que rapidamente ficou marcado pela sua presença. vincou o seu ser na realidade, sem metafísicas aparentes, ostentando o pragmatismo de quem sabe o que quer. na cozinha a água estava a ferver. mentiras, dizia ela. a água estava a ferver mentiras. ele não quis saber. talvez nem tenha ouvido o reparo.

 

olhar de João Paca | palavras de Joana Sousa

para acompanhar com Cults | You know what I mean

 

 

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esta coisa de me sentar à espera que o telefone toque ou a campainha dê sinal de vida. o toque, sempre o toque. o sinal sonoro que anuncia a chegada disto, daquilo ou daquele. o sinal de proximidade, de algo ou alguém que está aí para ser recebido com todo um sorriso. ou com uma lágrima. isso agora  já não sei dizer. sei que hoje tudo se espera, se alimenta, se aguarda, se projecta, se imagina. e o espanto passa-me ao lado. quer dizer, as coisas espantam-se com  a minha espera  e eu é não consigo ser espanto. espantoso, não é?

 

olhar e palavras de Joana Sousa

Nota: título «roubado» ao texto da peça Júlio de Matos, protagonizada por Joaquim Monchique

 

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Agora tens duas hipóteses: ou segues caminho ou atalhas por aqui comigo. E não sei, à partida (largada, fugida?) se um caminho é melhor do que o outro. Sei que serão muito diferentes, posso até garantir-te isso. Mas não me peças mais, não agora. Até porque eu sou um «fail» a geografia, se é que me entendes. E perco-me com facilidade. Mesmo com mapas à frente e assim.

E agora? Não há rituais e cerimónias. É seguir caminho. O bilhete é de ida e de volta, se assim o desejares. Porque isto de atalhar implica pés assentes na terra, cabeça bem no ar e o coração a bater e a desejar o prazer de caminhar(mos).

 

olhar e palavras de Joana Sousa

 

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Desta vez não vou querer saber. Se está tudo bem, se não está. Se tens tido insónias ou se andas de bom humor. É-me indiferente. Tiveste a tua oportunidade para fazer disto um momento daqueles que se guarda na gaveta do inesquecível e improvável. E deitaste tudo a perder. É uma pena, sim, uma pena, é todo um lamento. E não me importo que rias de insanidade ou grites de dor. Se calhar até prefiro que grites. Tendo em conta esta distância que nos afasta, não me importo que grites. Até prefiro. E grita, de tal forma que o teu grito me pareça um sussurro. De tal forma que eu não te consiga esquecer. Porque tu mereces um lugar na gaveta do inesquecível e improvável. Quem diria.

Sempre gostei de te ouvir sussurrar.

olhar de João Paca | palavras de Joana Sousa

 

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preciso mesmo de me apaixonar, seja por um par de sapatos ou uma obra de arte. preciso mesmo de me apaixonar, para me esquecer de ti e da falta que me fazem os teus beijos e o toque da tua pele. gostava mesmo de não te voltar a ver, talvez assim fosse mais fácil, entendes. estar contigo é asfixiante, estás comigo mas não podes estar. e isso sufoca-me tanto. preciso de me apaixonar, assim como alguém precisa de beber para esquecer aquilo que o faz penar. mas com a sorte que eu tenho, apaixonar-me-ia por ti, novamente. sim, estou a sentir. não precisas perguntar. são imensas as saudades, não demores.

 

olhar e palavras de Joana Sousa

 

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