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Era bom acordar e adormecer com as tuas palavras. Nem sempre me dava conta disso, mas o certo é que o sorriso tomava conta de mim assim que te sabia por perto. Isso não impedia que as saudades apertassem de vez em quando.

Surgiam as questões, os porquês, os comos. Sempre esta necessidade de compreender o que se passa à minha volta. É difícil aceitar. É difícil colocar o «on» no Buda em que em mim existe e sossegar a alma… Shiuuu são coisas boas! Não há motivo para alarme.

E perante as minhas dúvidas e hesitações tive uma atenção compreensiva, da tua parte. As conversas foram eliminando as impurezas do excesso de racionalidade. Sim, vamos resolvendo as coisas, é bom conversar sobre aquilo que está entre o eu e o tu [o nós].

Um dia deixei de ter resposta. Na verdade, respondias-me, mas estavas tão longe que um turbilhão de perguntas me assombrou. A primeira: que terei eu feito de errado?

Consultei o catálogo de palavras utilizadas e analisei o tom, o conteúdo, as pausas, os pontos finais, as vírgulas… passei a pente fino a gramática. Nada.

Perguntei. Fui directa. Repara, nem sempre o consigo fazer, por ser difícil assumir que estou a viver algo que simplesmente não compreendo. E aqui nem falo dos porquês que a razão [supostamente] explica. Falo dos porquês que só o meu coração procura. E não encontra.

Mais uma vez, uma resposta que senti plena de opacidade. Admito que não o tenhas dito dessa forma, mas foi assim que senti. É assim que me sinto, na corda bamba dos sentimentos, sem saber, sem te sentir como dantes.

E assim vou ficar. À espera que o Buda [e as respostas] acordem em mim.

Fotografia e texto de Joana Sousa

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- Então? Alinhas nisto comigo?

Ela encostou-se na cadeira, brincou com o copo de vinho. Ele insistiu:

- Estou à espera de uma resposta.

- Terás que esperar, então.  Ou então nem isso. Devolvo-te a pergunta, antes ainda de te responder – disse, enquanto levava o copo de vinho à boca.

Não lhe parecia muito justo. Tinha embrulhado aquela pergunta com tanta dedicação, para lhe oferecer e agora ela devolve-lhe o presente? Não há uma regra qualquer de etiqueta ou protocolo que previna estas situações?

- Mas isso não é justo, disse-lhe.

Ela bebeu mais um pouco de vinho. Pousou o copo. Fez sinal para que ele lhe servisse mais vinho.

- Caro amigo, a fuga para a frente não é solução. Não podes lançar o caos e não admitir que alguém to devolva. Eu não quero o teu caos. Já tenho caos que baste na minha vida. Por isso, antes de te responder, devolvo-te a pergunta. No momento em que te comprometeres com a verdade da tua resposta, eu avanço com a minha. Pensa nisto como uma troca directa.

Ele encostou-se na cadeira. Fitou o horizonte por detrás da silhueta dela. Por momentos, sentiu-se absolutamente só no mundo. Ele e uma mesa com dois copos de vinho e uma garrafa meio bebida. Tinha que satisfazer -lhe a sede de verdade, já que o vinho não lhe bastava para acalmar a sede. Ela sempre foi assim. Enfim, ele sempre a conheceu assim. Se ela é aquilo que ele conhece, ou não, só os deuses poderão afirmar. E como os deuses não se encontravam à mão, ele agarrou-se à garrafa de vinho. Observou-a à transparência, deixou que a luz do sol a invadisse. Encheu o seu copo de vinho.

Ficaram os dois a sentir o pôr do sol. Em silêncio. Pediram mais uma garrafa de vinho. Olharam-se, sorriram.

- Vamos?, disse-lhe.

Ao que ela respondeu:

- Obrigada pelo pôr do sol e pelo silêncio. Vamos.

Fotografia: João Paca

Texto: Joana Sousa

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Custa-me olhar para trás e ver aquilo que já foi. Parece-me tudo tão longe e distante, que nem me reconheço naqueles momentos. Pergunto mas quem é aquele que por ali se passeia, em episódios de vida sem sentido e de absoluta perdição.

Sim, sentia-me muito perdido. Ou melhor, ELE sentia-se perdido. Na verdade… ele sabe AGORA que estava perdido. Foram momentos sem norte, sem sul, sem eu, sem tu… e sem nós. Sem laços que o prendessem ao que quer que fosse, a quem quer que fosse. Era a independência total, o viver sem compromisso. E correu tudo bem (achava eu,… ele!) , até que parei. Parei, sentei-me no cimo do monte e olhei para aquela vida, para aquele deserto verdejante. Um deserto onde nunca houve sede, nem fome e as provações nunca foram físicas. Onde tudo abundava e tudo era fácil, rápido e imediato. Sim, uma vida em modo «fast food». Uma «fast life».

E de repente surgiu a vontade de me atar em nós  e em  laços com as coisas e as pessoas; de me envolver, de pertencer, de «estar com». Cansado de estar.  Posso agora começar a ser? Posso agora olhar para o meu deserto verde e colorido e guardar a sua recordação num baú sem fundo? Sim, agora. Aqui. Posso? Deixar o verde amarelar pelo sol, secar, tornar-se palha e desvanecer-se no tempo.

Posso?

Fotografia de João Paca

Texto de Joana Sousa

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Cabo-Verde-239

Sempre pensei que isto de caminhar caminhos fosse difícil. Sim, também eu tenho a convicção profunda de que as coisas na vida têm que ser difíceis e custosas, e que eu tenho que lutar muito para as merecer. O deus castigador, aquele que me ordena que trabalhe para me salvar, está profundamente presente em mim. Estava! Porque hoje não acredito mais nisso!

Hoje sei que as coisas não têm que ser assim. Não têm que ser sempre suadas e esforçadas e trabalhosas. Às vezes basta ser. Às vezes, não! Basta ser e ponto final!

«Basta».

Minto. As coisas têm que ser suadas e esforçadas e trabalhosas. O «basta» e o acto de compreender que «basta ser » é uma tarefa árdua, até que nos saia do corpo e da alma espontaneamente.

Hoje sei, sinto, caminho de modo completamente diferente. Até a areia da praia repara e sussurra que os meus passos parecem os de outra pessoa.

E são.

Fotografia de João Sousa
Texto de Joana Sousa

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Caminhar Diferente
Foi naquela noite de verão, depois daquela saída memorável… memorável, sentida e que deixou marcas… a loucura da idade misturado com os prazeres da vida deixaram em mim a marca da irresponsabilidade, do não ter cabeça, como alguém um dia disse “quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga” e pagou… pagou uma franquia bem alta, necessária e fundamental para seguir pelo caminho que é de todos nós!

Deparo comigo á beira de um lago… que sitio é este? Onde estou? Que lago grande e lindo! Nunca tinha visto nada assim; perde-se no horizonte fundindo os dois azuis, o do lago que é mais escuro, com o do céu um pouco mais claro; de repente ouço uma voz que chama por mim, voz essa que não faço ideia de quem seja, nunca tinha a ouvido, é tão suave e doce, ela diz repetidamente, caminha… caminha… caminha ate mim, que não te afundarás! Fiquei ali a olhar, a tentar perceber se eram vozes o que ouvia ou se era na realidade alguém a chamar por mim, por vezes perco-me nos meus pensamentos e poderia bem ser imaginação minha, mas parecia tão real… mas o que me preocupava não era a voz, era como é que eu caminharia? Sobre a água? Impossível! Estaria eu a ficar louco?

Novamente ouço a mesma voz a chamar por mim… desta vez ouço um… acorda!.. acorda!… Na realidade era apenas um sonho, mas parecia tão real!… Mas aprendi com este sonho, não foi um sonho em vão, fez-me acreditar! Acreditar que é possível, quando acreditamos em nós e queremos muito, os impossíveis deixam de existir, dando lugar á esperança de que tudo é possível, mesmo com um caminhar diferente…

Fotografia e Texto de Marco A. Pires
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Carril com Vida

Ele sempre pensou que as certezas que trazia consigo eram «certas» até que um dia uma carta, uma simples carta, mudou a sua vida.

Não tinha consciência de que aquele envelope continha os seus planos para o futuro, desenhados por outra pessoa. E nada fazia adivinhar que o rumo da sua vida estaria entregue a alguém que não ele! Às vezes temos «a mania» de que as coisas estão controladas. Mas não passa de uma mania.

Perante aquilo que leu, não houve outra hipótese senão fazer as malas e comprar o bilhete do comboio, o mais rapidamente possível. A viagem seria longa. Na verdade, se consultarmos os horários, entre a partida e a chegada contar-se-iam cerca de 90 minutos. Mas para ele essa viagem durou uma eternidade. Porquê?

Porque ainda que o comboio estivesse a andar para a frente, o seu movimento era o de retrospectiva profunda sobre a vida que até então tinha vivido. As decisões tomadas, os erros, as alegrias, as dúvidas e… as certezas! Esse era o seu calcanhar de Aquiles! Admitir que as certezas se desvaneciam, à medida que o comboio deslizava no carril.

Queria calar a mente. Ligou o leitor de mp3 e deixou que a música lhe invadisse os sentidos. Fechou os olhos e a única coisa que via era aquela carta. A maldita carta que mudou o curso da sua vida. Fechou os olhos com mais intensidade, para, em vão, tentar eliminar essa imagem da sua cabeça. Mas a carta, lá estava. Em cima da mesa da sala de jantar a lembrá-lo que os planos são entretenimentos da alma para tentar fugir ao destino que a vida nos reserva. Para tentar fugir à compra do bilhete do comboio. Para tentar fugir à viagem. Para tentar fugir ao movimento do carril.

Impossível.

O carril tinha um movimento próprio, encerrava uma vida que simplesmente não era a dele. A daquele homem que um dia carregou às costas uma mão cheia de certezas, que se desvaneceram ao ler uma simples carta, que o carteiro habitual lhe entregou em mão.

Quem serei a partir de hoje? – perguntava-se.
O balanço do comboio tornou-se uma melodia sem dó. E foi essa melodia que o embalou até à estação terminal.

Fotografia de Marco A. Pires
Texto de Joana Sousa

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