Tens noção que já não há volta a dar?

Tenho pois, disseste sorrindo.

Estou disposta a correr o risco.

Então não tens medo?

Tenho. Mas estou confortável e em paz com esse medo. Quero só saber o que me espera do outro lado. Nada a perder, entendes.

Entendo, pois.

Eu vou contigo!

Aqui nada tenho. Perdi a dignidade, a vontade, o ser que outrora fui. Será uma bênção fechar esta porta e ver que janela se abre.

A janela era ampla. Mais que ampla. Colocámos os braços no parapeito e aguardámos que o sol nos brindasse com o calor.

Sabes aquela história da luz ao fundo do túnel?, perguntaste.

Sei. É um clássico.

É. Mas não há uma luz ao fundo do túnel. Existem, sim, duas luzes. Brilhantes. Que me encadeiam o olhar.

Encadeei o meu braço no teu. Poisaste a cabeça, levemente, no meu ombro. Era a hora.

Selámos com cadeados de algodão o que já foi e abrimos o presente dos encadeamentos futuros.

Título: (En) ca(n)deado

Texto de Joana Sousa

Fotografia de Marco A. Pires

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E a mãe é a guerra de todas as coisas. Disse-o Heraclito e eu faço o favor de repetir vezes sem conta, sempre que vejo dois opostos em duelo pelo lugar ao sol da verdade. E a ideia de Sol faz-me lembrar a Ideia de Bem, de Platão. Aquela a partir da qual todas as ideias conheciam a vida.

Será tão difícil olhar para a realidade, tal qual ela é, sem estas molduras filosóficas e conceptuais? Não posso simplesmente SER? Ver, sentir, comer… sem mais não? Numa revolta caeiriana de quem um dia sonhou ser Guardador de Rebanhos?

(pensar incomoda como andar à chuva, já dizia o poeta!)

O que realmente me incomoda é a percepção de que não vou conseguir conter em mim todas essas coisas (de que a guerra é mãe) no meu pensamento, no meu grito, na minha dor, no meu suspiro prazeiroso.

(you can’t always get what you want, cantou alguém um dia)

E é isto. Estou incomodada. Há um dedo acusatório na minha direcção e um olhar infernal no qual posso rever a minha silhueta. O inferno é os outros, não é Sartre? E já caí de novo na teia dos conhecimentos e saberes de trazer no bolso.

A mãe é a guerra de todas as coisas. Hoje declaro guerra a mim mesma.

Título: Guerra à Berta

Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Sousa

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Não vou andar mais a teu lado, acompanhar-te nos trilhos que escolheres. Cansado que estou de andar a reboque de ideias que não consigo vestir e trajes que não consigo conceber. A minha estação está quase a chegar e para mim será terminal. Tu, tu podes sempre continuar, ainda que deixes de permanecer. No meu caminho, claro. Outros caminhos poderão coincidir no teu e permitirão que neles permaneças. E aquela imagem de um dia caminharmos lado a lado, com branco a polvilhar os nossos cabelos e artroses a invadirem os nossos corpos; essa ideia terá que ser remetida para a pasta da reciclagem e daí eliminada definitivamente.

Tem a certeza que quer eliminar esta imagem definitivamente?

Tenho.

E não há nada que me faça mudar de ideias. Nem o medo de um dia ter brancos no cabelo e artroses nos joelhos e não haver ninguém ao meu lado com quem partilhar as dores de ter cabelos brancos e o inestético de uma artrose (ou duas, ou três…).

Agora o caminho é meu. Podes passar-me aí a metade do meu bilhete? Obrigado.

Título: Artrose inestética

Fotografia de João Paca

Texto de Joana Sousa

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Há formas diferentes de se assinalar uma presença na vida de alguém. Aliás, isto da presença é uma daquelas equações complexas que deixam os génios matemáticos à beira de um ataque de nervos (cabelos em pé, unhas roídas e coisas afins).  Presença presente, ausência presente, presença ausente, ausência ausente – são expressões que me deixam a mim com os cabelos em pé (porque não tenho o hábito de roer as unhas). Agora que me sentei aqui à beira da tua cama, olho para os teus sapatos ali ao fundo e pergunto-me de que forma eles representam a tua presença (ou ausência).

Engraçado! Lembrei-me agora do quadro do Van Gogh, aquele dos sapatos… tens ideia? Houve uma altura em que investiguei a essência da obra de arte, e através de lentes heideggerianas olhei e olhei e voltei a olhar aqueles sapatos.

Mas ao olhar para os teus, não há Heidegger que me valha. Porque a obra de arte que aqueles sapatos representam é alguém que me é próximo, cujo respirar eu consigo ouvir, cuja face posso tocar, cujos lábios gosto de beijar. Por isso, caro Martin, não me podes valer em toda a tua teoria e prática sobre a estética. Nem tu, nem mesmo o Hegel (mas podem continuar a enviar cupões…).

Se calhar é melhor calar os meus pensamentos, secar o cabelo e vestir-me. Está um dia inteiro lá fora, à minha espera e a marca da tua presença terá que se colocar a caminho do trabalho e da rotina.

Título: os (teus) sapatos do Van Gogh

Fotografia de Marco a. Pires

Texto de Joana Sousa

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Parece, então, que é altura de fazer balanços do ano. É uma daquelas tradições inquestionáveis, como ir à praia assim que há sol, que ostraciza quem não as cumpre. O quê? Estamos a meio de Agosto e ainda não tens o bronze actualizado? Então? É dia 31 de Dezembro, conta lá, conta, o que correu bem este ano!

Lamento desapontar-vos, mas não me apetece nada olhar para o passado.  É uma gaveta que já foi arrumada, desarrumada e arrumada de novo (procurava umas meias giríssimas com umas riscas pretas e cor de rosa, sabem….) e há coisas que simplesmente devem ficar assim. E ponto final.

Não encontrei as meias. É lamentável. É lamentável que não consiga encontrar o meu par de meias preferido na gaveta. Resta-me eleger um novo par de meias preferido para o ano que agora começa.

Imagino assim o ano novo como uma grande tela, de parede a parede. Em branco (apesar de adorar escrever em papel quadriculado). Já tenho as tintas preparadas (sim, cor de rosa e preto e muitas mais!). E vou então buscar o escadote para começar lá bem no alto. Sim, ainda não cresci o suficiente para chegar lá no alto. Preciso do escadote. Corro o risco de cair (nunca tive muito equilíbrio e nem sei andar de bicicleta!) Mas é um risco, e também com riscos se dá cor a uma tela.

Texto e Fotografia de Joana Sousa

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