Tens noção que já não há volta a dar?
Tenho pois, disseste sorrindo.
Estou disposta a correr o risco.
Então não tens medo?
Tenho. Mas estou confortável e em paz com esse medo. Quero só saber o que me espera do outro lado. Nada a perder, entendes.
Entendo, pois.
Eu vou contigo!
Aqui nada tenho. Perdi a dignidade, a vontade, o ser que outrora fui. Será uma bênção fechar esta porta e ver que janela se abre.
A janela era ampla. Mais que ampla. Colocámos os braços no parapeito e aguardámos que o sol nos brindasse com o calor.
Sabes aquela história da luz ao fundo do túnel?, perguntaste.
Sei. É um clássico.
É. Mas não há uma luz ao fundo do túnel. Existem, sim, duas luzes. Brilhantes. Que me encadeiam o olhar.
Encadeei o meu braço no teu. Poisaste a cabeça, levemente, no meu ombro. Era a hora.
Selámos com cadeados de algodão o que já foi e abrimos o presente dos encadeamentos futuros.
Título: (En) ca(n)deado
Texto de Joana Sousa
Fotografia de Marco A. Pires





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