Quase tudo e quase nada. Se no limite os opostos se encontram, poderá o quase tudo ser o mesmo que o quase nada?
Pensei que entre nós tudo estivesse alinhavado e que a perfeição fosse o meu e o teu apelido. Estava tão ocupada a viver a perfeição dos dias que passavam, que te não via do outro lado. Do lado da imperfeição. Esta e aquela são vizinhas. Moram lado a lado. Quero dizer, frente a frente. Basta atravessar a rua. E se esta rua tem movimento. E se é exigida atenção para não falhar o momento certo para atravessar. Eu não me prestei a essa atenção. Tecia teias de coisas que me ocupavam o dia, a noite, sem olhar para o outro lado da rua, onde morava a imperfeição (daqueles mesmo dias, daquelas mesmas noites).
Não vi como havia tanto para alinhavar, tanto para tornar perfeito.
(Mas isso da perfeição… existirá mesmo?)
Sim, existe. Eu imaginei-a e repeti o seu nome vezes sem conta ao vento que passa e à chuva que cai. E ao vento que queima a pele. E aquilo que eu digo e repito existe! Existe por ser algo que eu digo e repito.
E tu chegaste. Chegaste e cortaste os fios das teias que eu tecia. E ao mesmo tempo disseste
Um dia vai faltar quase nada.
No fundo, o que querias dizer era
Um dia vai faltar quase tudo.
E faltou. Faltaste.
Título: Um dia vai faltar quase nada
Texto de Joana Sousa
Fotografia de João Paca


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