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Aborrece-me que me perguntem o que é o amor. Sou fanática pelas definições, mas só por aquelas que me ajudam a entender as coisas que me rodeiam. E sei que se definir o amor nem por isso vou ter mais facilidade em entendê-lo. Até porque, e esta é a verdade, não tenho vontade, curiosidade ou necessidade de saber ou entender o que é o amor.

Quero, sim, vivê-lo e senti-lo na pele. No mais epidérmico do meu ser que é o que tenho de mais profundo. Não me peças para explicar o que sinto. Porque não vou conseguir encontrar as palavras certas. Aliás, acho que esta minha fixação pelas definições se explica mesmo pela minha enorme falta de jeito com as palavras. Mas como disse, há coisas que prefiro não definir.

E agora diz-me tu… é para embrulhar ou para sentir já?

Texto: Joana Sousa

Fotografia: João Paca

Música: Ben Harper – Sexual Healing

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- O futuro preocupa-te? – perguntei, sorrindo.

- Não sei o que é o futuro. Não o conheço, não sei se vou conhecer.

- E não tens curiosidade?

- Não sei. Nunca pensei sobre isso. Prefiro sentir a areia quente nos pés e o sol na minha pele. Trabalho, tenho as minhas coisas. A minha areia e o meu sol.

Interrompi a conversa para lhe estender um copo de água. Tinha calor e achava que ela também teria.

- Não, obrigada, disse ela. Estou bem. As minhas roupas são frescas e já estou habituada a este tempo.

- Gosto dessa tua calma… não é bem calma. É uma outra coisa que vem de dentro e que passas para quem está à tua volta. Eu dou tudo para estar aqui, neste teu mundo… largo tudo. E venho.

A calma (que era outra coisa cujo nome desconheço) da minha avó era verdadeiramente impressionante e os momentos com ela constituíam um refresco para a alma.

- Filha… não há segredo nenhum em aproveitar a areia e o sol. Só precisas querer. Diz-me: podes fazer isso?

- Posso, respondi.

- E queres?

- Quero, respondi, sorrindo, na esperança de que a minha avó me abraçasse, como o fazia antes.

Ainda hoje gosto de conversar contigo, ainda que seja possível apenas nos meus pensamentos.

Texto: Joana Sousa

Fotografia: João Sousa

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Pontes. Sempre gostei da ideia de ponte. Da noção de ter algo a ligar duas margens distintas e distantes. E gosto sobretudo das pontes que não são visíveis nem palpáveis e que unem margens improváveis.

Improbabilidade – ora aí está uma ideia que também me agrada.

(Gosto muito de ideias. Mas talvez vos fale disso numa outra oportunidade, se não se importarem.)

As margens que se ligam de forma improvável são ricas e únicas. Proporcionam caminhos que se fazem uma vez. Viagens de ida e sem volta. Sem volta, porque quando as margens improváveis se ligam, não há volta a dar.

E não há mesmo, pois nas minhas pontes improváveis não há lugar para rotundas onde seja possível dar uma volta e regressar. O caminho é um. Aquele, e não outro. E de uma margem posso sempre caminhar no sentido de outra, demorando-me o quanto baste aqui e ali.

Hoje demoro-me nesta ponte, cujo nevoeiro me desafia a permanecer e a descobrir o que nele se esconde.

Texto: Joana Sousa

Fotografia: Marco A. Pires

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Escrevo-te com a bateria já fraca. Não falo da bateria do computador, mas da minha. Perdi a energia para ficar e, ao contrário do que sempre pensei e advoguei como escolha, resolvi dar o passo. Realizar a fuga. Quero que saibas que o presente que me dás não é compatível com o presente que eu sou (para ti). A toda a hora receio que desistas, que sejas tu a fugir.

Será egoísmo, este não querer que me fujas? Este colocar-me à frente de tudo para não ser eu aquela de quem tu foges? Será?

Se é, gostaria que não o fosse. Ou que inventassem outra palavra para esta coisa do egoísmo. É uma palavra gorda e farta de coisas que não fazem sentido comigo.  Ou então, fazem. E sou eu quem não quer admitir que assim seja.

Não quero que me chames egoísta, mesmo que o seja. Pode ser? Inventa outra palavra, por favor. Ou então esquece-me. Arruma-me na prateleira mais alta da tua biblioteca, de forma a que não me vejas e me deixes definitivamente a ganhar pó. Deixa estar o pó, não me incomoda. Prefiro assim.

Prefiro apanhar o comboio e fugir. Para a frente daquilo que um dia recusei ser (e ter) contigo.

Como última carta deveria escrever-te mais? Como deveria ter estado mais. Ter sido mais. Ter dito mais coisas. Ter aproveitado mais os silêncios.

Mas agora a hora é outra. E não há mais (nada) que me valha.

Texto: Joana Sousa

Fotografia: João Paca

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Ninguém escreveu ainda as palavras que consigam traduzir o que sinto por ti.

Sim, por ti.

Porque é que me olhas com esse sorriso malandro?

Por quem havia de ser?

Por quem mais sinto sede e fome, como se tivesse caminhado sedenta e faminta durante um tempo que me pareceu uma eternidade?

Sim, aos olhos dos deuses esse tempo não durou mais do que um instante. Mas para mim traduziu-se na eternidade. Num «para sempre», vivido aqui e agora.

O instante só faz sentido quando recordo o primeiro olhar com o qual me provocaste um arrepio na espinha, como se o mundo fizesse «pausa» e nada mais acontecesse em parte alguma.

Nesse momento, nesse preciso momento e instante, e agora (mais do que nunca) senti (e sinto) que um vazio no meu ser encontrava algo que o completa. Havia uma fome de amor (em mim) que encontrou (em ti) o espaço e o tempo certos. Diria mesmo, perfeitos.

Mais que perfeitos. Mais fome (e sede) de ti.

Por isso, hoje sento-me à máquina para te escrever e acalmar a sede e a fome. Guardo a esperança secreta da minha escrita ser (por ti) surpreendida e o meu pescoço (por ti) seja beijado.

Ninguém escreveu ainda as palavras que consigam traduzir o que sinto por ti.

Excepto eu.

Texto: Joana Sousa

Fotografia: João Paca

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Há toda uma magia nesta coisa do amar. É complicado, é isto, é aquilo. Para mim é sobretudo MÁGICO. Sempre achei que o resultado amoroso  do encontro entre duas pessoas, num dado momento, num dado contexto, com tantas possibilidades de tal não acontecer… só podia ser fruto de uma imensa magia, orquestrada nem sei bem por quem.

Mas não é importante.

Ontem, com 6 anos, a pequena Matilde confessou-me que «o amor às vezes dá chorar». E hoje eu quero mostrar à Matilde que o amor dá isso. E muito mais.

O amor dá abraços (daqueles que aquecem o coração por dentro). E beijos (que nos fazem levitar). Dias há em que o amor provoca a sensação de borboletas na barriga (que atire a primeira pedra quem nunca sentiu isto!). E dá noites mal dormidas (a pensar: humm será que ele … oh! Que ideia a minha!). No dia a seguir, pode muito bem haver olheiras (o amor dá olheiras? Não tinha pensado nisso!).

Matilde, o amor dá a vontade de partilhar as coisas (boas e más) com quem nos ama. E o chorar também acontece à mistura com sorrisos.

Amanhã, quando chorares por amor, vais guardar no teu coração as coisas que te fizeram sorrir: a primeira troca de olhares, a forma atabalhoada como trocaram números de telemóvel, as desculpas que inventaste só para apanhar o mesmo autocarro do que ele… as músicas que decoraste só para terem algo em comum, a tarde no cinema, as mãos que se tocam.

E o beijo! Matilde, aquele primeiro beijo que nunca corre bem, porque temos a cabeça e o coração aos pulos, concentrados em «fazer tudo bem». As mãos? O que faço às mãos? Abraço-o? Afago o seu cabelo?

E quando no momento mais romântico o teu estômago acusa a fome? (Sim, porque estiveste a tarde toda à espera desse beijo e nem te lembraste do lanche!)

Matilde, às vezes o amor dá amor! E isso é absolutamente mágico.

Texto: Joana Sousa

Fotografia: João Paca

Nota: o título do texto é da autoria da Matilde, de 6 anos.

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É sempre uma questão de tempo, esta questão que de tempos a tempos assombra o meu viver.

Uma questão de minutos, de horas. De dias que passam e de escolhas que se fazem. Eventos que se marcam e prioridades que assumem importância ou urgência consoante isto ou aquilo.

Mais tarde ou mais cedo

[e o tempo, senhores, novamente o tempo]

iria surgir a questão. O quando!

[ora aí está o tempo, de novo]

E eu, que não me posso deixar surpreender por isto, esboço um sorriso nervoso e admito, mais uma vez, que não sei lidar com o tic tac. Com a pressão, com o picar do ponto às 9h e sair às 18h. Não sei.

E não sei se tenho

[aí vem ela, a palavra maldita]

tempo para um dia aprender.

Ensinas-me? Num local sem tempo, nem espaço, onde a única pergunta seja  o «como» e o «quando» fique à porta.

Sempre fui fã dos «porquês». Admito, os «comos» também me atraem. Podemos ignorar que os «quandos» existam? Riscá-los assim do dicionário das nossas vidas e fazer de conta que não existem. Fazer de conta, sem tempo nem espaço.

Texto de Joana Sousa

Fotografia do Marco A. Pires

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Era um sonho daqueles de menino pequeno. Menino que brinca na rua como se esta fosse a sua casa desde sempre. E era.

A rua era a sua casa. E o seu sonho o de ter uma casa a sério.

Naquele dia trocámos algumas palavras, à conta de uma bola que veio parar aos meus pés.

- Senhor, a bola…?

- Aqui tens, desculpa. – Disse-lhe.

- Eu é que peço desculpas, distraí-me. Acho sempre que a rua é completamente minha.

- E não é? – Perguntei . O estranho aqui sou eu. Turista. De visita, de passagem.

- Eu acho que a rua é minha. E é aqui que vivo, passo os meus dias quando não estou na escola. Gosto de aprender as coisas da escola, mas na rua também se aprende muito. – Respondeu-me.

Eu já lhe tinha entregue a bola. E ele conversava comigo, lançando a bola de uma mão para outra. Um  movimento pendular tão hipnotizante quando o brilho dos seus olhos.

- Diz-me uma coisa que tenhas aprendido na rua.

- Eu? Eu cá aprendi a crescer. A deixar de ser criança. Só quando brinco com os meus amigos – e virou-se para apontar o grupo que o esperava – é que consigo ser um bocado criança e brincar sem pensar muito nisso. De resto, viver na rua é coisa de gente grande. E eu tive que crescer. Não em altura, mas para sobreviver.

Sorriu. Disse-me adeus, acenando com a bola na mão. Voltou para o grupo de amigos e nem olhou para trás. Fiquei a observá-los durante algum tempo, a observar a magia de ser criança «sem pensar».

No dia seguinte, voltei ao mesmo sítio, na esperança que a bola o encaminhasse de novo para mim. Mas as férias acabaram sem que o voltasse a ver. Enfim, também eu tive que deixar de ser «criança» para voltar a pensar em muitas coisas, no meu regresso aos dias de todos os dias. Nesses dias, lembro-me daquele pequeno, para quem a rua era o palco do seu crescer. Aqui os meus palcos são outros.

Comprei uma bola  igual ao do pequeno. Guardo-a na gaveta do meu escritório, que é a «minha rua», onde «aprendi a crescer».

Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Sousa

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