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Ele sempre teve uma má relação com as palavras. Por um lado, faz delas o seu trabalho, o seu modo de vida. Por outro lado, sente-se aprisionado pelos conceitos. Chamemos-lhe uma típica relação de amor ódio. A relação onde os opostos são vividos com a mesma intensidade e o mesmo querer.
Diz-se por aí que os opostos se atraem.
Diz-se, também, que no limite os opostos são um e o mesmo.
Diz-se – com palavras! «Sempre as palavras», pensa ele. «Porque não posso dizer com o olhar, com o tocar, com o cheirar…? Porque não tomar a ambiguidade do silêncio como forma privilegiada de comunicar?»
«Precisamente porque é ambíguo», digo-lhe. «Como é que tens a certeza que a pessoa te vai compreender? Já com as palavras é o que é… múltiplos sentidos, múltiplas formas de se dizer o mesmo…»
Procurou o tabaco nos bolsos; qual metafísico que se preze, os cigarros são uma das suas companhias preferidas. Acendeu o cigarro. Focou a sua atenção na parede da esplanada.
«Estão em todo o lado», disse.
«O quê?», perguntei enquanto me virava para trás. «Ah, as palavras.»
A parede tinha uma série de pratos expostos, com palavras inscritas. Parecia não haver ordem na escolha. Não faziam sentido.
«Parece que vais ter que te reconciliar com as palavras. Mais tarde, ou mais cedo.»
«Que seja mais tarde, então.», respondeu-me.
Pedi mais um café. A conversa ia ser longa. E silenciosa.
Texto: Joana Sousa
Fotografia: João Paca
Música: Right Through You – Alanis Morissete







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