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Dizem-me que o segredo das multinacionais é a dimensão relativa aos processos. Explica-se o seu bom funcionamento e o seu sucesso pelo facto de haver scripts para que cada colaborador possa desempenhar a sua função.

A pergunta que se impõe… melhor! A pergunta que eu imponho é: e scripts para a everyday life? Alguém conhece? Alguém tem?

Alguém se candidata a redigi-los?

Alguém?

(Não estou a ver braços no ar…)

Compreendo. Seria demasiado aborrecido operacionalizar a vida e a sua riqueza com um conjunto de scripts. Ou então não. Talvez haja toda uma série de vantagens em perder a espontaneidade e eliminar a possibilidade de erro.

Num plano ideal poderíamos colocar a situação em espera, como nos fazem nas chamadas para os serviços de apoio. Deixamos o outro a ouvir uma música de estilo Michael Bolton, até que se encontre o procedimento ideal para a questão colocada.

«A tua questão é importante para mim. P.f. não desligues

E o que fazer quando o outro efectivamente desliga, porque desistiu de esperar?

Haverá script para isso?

(Mais uma vez, não estou a ver braços no ar…)

Mas posso, ao menos, fazer off à música do Michael Bolton?

Texto de  Joana Sousa

Fotografia de João Paca

Música: Said I love you but I lie – Michael Bolton

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…tenho um emprego e uma vida normal»

A verdade é que não sou quem tu queres que eu seja. E a palavra normal não se aplica, de todo, à minha pessoa. É como ter um tacho e uma dúzia de tampas que simplesmente não encaixam. É como enfiar o Rossio na Rua da Betesga. Ou querer vestir um S, quando o ideal é um L.

Como dizem os ingleses, it doesn’t fit!

Por mais que queiras e que lutes, sustenhas a respiração, encolhas o peito, as costas, simplesmente não serve!

E com a camisola atravessada, baixas os braços, como que a dizer

- E agora?

Não era suposto vestir isto e passear-me com esta camisola feita só a pensar em mim? E que sempre ambicionou, desde que os fios se entrelaçaram na fábrica, ser vestida por mim (e apenas por mim)?

Se calhar, era. Se calhar, não.

E agora? Tenho a camisola meio vestida, meio despida. E se não fosse cá por aquelas coisas do pudor, até te pedia para me ajudares a vestir (despir?). Mas tenho cá para mim os meus limites. E hoje não vesti a minha melhor roupa interior. Tenho receio que percebas que afinal não sou uma mulher sofisticada e não uso rendas. Gosto de algodão. Porque é simples, prático e não exige grandes tratamentos. Já eu, sou complexa, pouco prática e exijo ser tratada que nem uma princesa (sim, incomodam-me as ervilhas debaixo do colchão).

Por mais que eu queira, esta camisola não serve. Importas-te de me fazer chegar outra, dois números acima? Obrigada.

«O teu bem faz-me tão mal!»

Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Paca

Música: mal por mal – Deolinda

Nota: o título foi «roubado» à música da Deolinda. Obrigada pela inspiração!

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É o momento hic et nunc. Aqui e agora. Não podes voltar atrás, pois a decisão há muito que foi tomada. A hora é de agir. Ou deixar agir.

O que se sente? Não sei se as palavras são o quanto baste para que percebas o que é. Ver o mundo lá ao fundo, um nada que é tudo; sentir o algodão das nuvens nas mãos e o corpo (e a alma) em total queda livre. A chuva que te pica a cara e te faz sentir presente.

O desconhecido, o medo. A paz, a liberdade.

Fazer cócegas ao céu, que é azul, branco, cinza e da cor que eu o quiser pintar. Afinal, o céu (também) é meu, a partir de hoje.

Somente estar ali, entregue (literalmente) ao sabor do vento.

Perceber que o instante pode ser eterno. Compreender que cada segundo, ALI, é eterno. E sabe a pouco. É sempre pouco. Eternamente muito e pouco!

Confuso? É natural. As sensações são mistas, contraditórias e simultâneas entre si. E o pensamento flui, deambula com o vendo e as asas.

E depois os pés tocam o chão e a realidade das coisas. Volto à verticalidade das coisas, com a cabeça na horizontalidade do olhar e do sentir, em queda livre.

Faço minhas as palavras do Lenny: I wanna fly away…

Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Sousa

Música: Fly Away – Lenny Kravitz
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Encontrei. Encontrei os sonhos outrora escritos num papel.

Nunca mais me tinha lembrado daquele papel que prometi não abandonar. E acabei mesmo por abandonar, tal foi a surpresa de o ter encontrado.

Agora que leio a lista, vejo que não foi só o papel a ficar abandonado, mas também os sonhos. Ficou tudo numa gaveta, porque a rapidez e a emergência da vida não me deixaram tempo para os sonhos. Sim, dizer que a culpa é da vida é cobarde, pois a vida sou eu, certo? Concluo, então, que a culpa foi minha. Definitivamente minha.

Respiro fundo e leio de novo aquilo que escrevi com a minha própria letra.

Encontrei os sonhos outrora escritos num papel. Mas não me reconheço. Não sou hoje aquilo que tanto desejei ser há uns anos.

Será que ainda vou a tempo de mudar? Olho para o relógio: o tempo não pára.

Eu é que parei, suspendi a minha vida por causa… da «vida» que nunca pensei vir a ter.

E agora?

Encolho os ombros. Procuro uma caneta, um papel. Vou começar de novo.

Escrever de novo, ser de novo. E rasgar o que já fui.

Texto: Joana Sousa

Fotografia: João Paca

Música: Lilac Wine – Jeff Buckley featuring Imelda May

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