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Escolhas. Sempre as fez sem pensar muito. Sempre foi daquele tipo de se deixar ir pelo que sentia nos momentos. E depois? Depois logo se veria. Logo se havia de preocupar.

É um indivíduo de poucas pré-ocupações. Não quer saber de nada que não seja o aqui e agora.

Que inveja! Dessa capacidade de estar e pronto.

- Conta-me o teu segredo.

- Não há segredo algum – respondeu-me.

- Mas como não? Como não teres um segredo que seja a chave para esse apaziguar da alma que defendes como bandeira? Bolas, sabes lá tu o que me custa a mim escolher. É toda uma alma que se dilacera e…

- De manhã, tens dificuldade em escolher a roupa que vais vestir?

Respondi que não. E é verdade. Abro o armário e escolho sem dramas, sem hesitação.

- Então… o que custa escolher? Escolhe-se e pronto.

Não fiquei convencida. E desde esse dia que me levanto 15 minutos mais cedo para escolher o que vestir. Tornou-se um problema. Maior. A tua simplicidade não conseguiu largar o carril e empurrar a minha complexidade num sentido diverso.

Vidas! – é assim que o povo diz, certo?

Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Paca

Música: The quest -  Bryn Christopher

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Gosto da forma como voltas a mim. Parece que o tempo não passou desde o dia em que conversámos sobre o final das coisas e o princípio de tantas outras. E que conversas as nossas, passando em revista as grandes questões da humanidade. E as pequenas. As médias. As minis. Tudo era assunto de conversa. Ainda é. Quando voltas a mim.

Juro que nunca te consegui alcançar. Sim, eu acenava, acompanhava-te na conversa, assentindo com um monossílabo aqui e ali e uma ou outra interjeição. Mas não a conseguia transpirar na pele, como acontecia contigo.

É que… bem, tu falas com todos os teus poros presentes nas tuas palavras. Impressionante.

Mas depois desapareces. Deixas a mesa vazia, aquela onde partilhamos o granizado de limão. E vais espalhar magia para outra mesa, para outra freguesia, sem olhar para trás.

E isso não me incomoda, por saber que vais voltar à minha mesa, que eu vou pedir o granizado com duas palhinhas. E tu vais contar-me dessas tuas viagens e visitas às freguesias alheias. E eu vou deleitar-me com a tua conversa. Como sempre. Fazendo dela o açúcar que faz falta à minha bebida.

Que bom é ter-te na minha vida, sempre que a ela regressas.

Texto de Joana Sousa

Fotografia de Marco A. Pires

Música : Breathe me – Sia

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Consigo avançar. Porque para mim a ideia de estar parada nas circunstâncias das coisas não me é agradável.

Não gosto de parar, por força da dor que sinto. Não quero. E não vou parar.

Consigo dar um passo em frente. «Como?» É simples, um pé à frente do outro. Não sei andar de lado, nem para trás. Esqueces que não sou Caranguejo de signo? E nem o possuo no meu ascendente?

Esqueces, pois. Porque queres ver em mim alguém que não sou, mas que é a resposta para toda a tua solidão, desencontro, des-caminho e perdição.

E queres ver isso, tanto que esqueces os dois lados que cada história comporta. Histórias há que têm três lados, mas disso falaremos um dia mais tarde. Aliás, já falámos e tu já esqueceste.

Eu sou o outro lado da história e não estou a acompanhar a narrativa. É que nem me deixas escrevê-la, decidir a cena seguinte. Ficas aí, no teu canto. A perspectivar cenários, a achar que me assentam bem. E eis que surge o momento da verdade e tudo cai por terra.

Desculpa, mas eu consigo avançar.

Não sei se vou conseguir continuar a marcar presença na tua vida, mas te garanto que consigo avançar.

Mesmo que isso signifique enganar-me a mim própria. Ou até escrever coisas tortas em linhas… igualmente tortas.

Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Paca

Música: Crystalised – The XX

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Não gosto da forma como sais disto, carregando nas mãos o troféu de quem fez tudo por tudo e nunca errou. É que não gosto mesmo. Irrita-me a forma presunçosa como agiste, comprando argumentos como quem lança dados já viciados.

Irrita-me o arzinho de cachorro abandonado com que te mascaras perante os outros. Irrita-me que os outros me olhem como aquela que tinha tudo para ser feliz

(a teu lado, claro)

e abdicou disso por coisinhas menores.

Ah! Esse papel fica-te tão bem. E é melhor assim, pois eu nunca tive muito jeito para fingir. Já tu, assumes o fingimento na perfeição

(farias inveja ao Pessoa, te garanto)

e passeias pelas ruas da tua vida com a máscara perfeita.

Lamento que te tenhas enganado a ti próprio. E que aquilo que pensaste para um «nós» que não chegou a existir tenha sido refutado. Lamento ter perdido tempo a segurar as pontas para fazer um nó(s) maior.

E eu que não gosto nada de perder tempo.

E eu que não vou mais vou perder tempo. Contigo.

E isso, caro amigo, eu não vou nunca lamentar.

Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Paca

Música: Just An Illusion – Imagination

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Guardo aquele momento cristalizado na minha memória. Como preferia não o ter vivido. Não ter trocado as palavras que troquei contigo.

Não seria capaz de o viver de novo. De te dizer o que disse. Por isso decidi fixá-lo num dia e numa hora que não quero lembrar. Como uma tela que se pintou um dia e que fica ali, sem tempo, fixa numa parede.

Preferia tê-la fixa, no fundo de um lago, para que a sua imagem ficasse turva e eu pudesse esquecer as tais palavras. Aquelas que trocámos e com as quais nos magoámos. E ferimos o que tínhamos construído.

A tela outrora pintada jaz agora no fundo de um qualquer lago de emoções; sempre que a olho, consigo vê-la de forma diferente, seguindo a ondulação que a água (o tempo) lhe provoca. Sempre diferente, mas sempre certeira na dor, a tela ali vai continuar.

E tu segues o teu caminho. Levas contigo o pote das tintas, os pincéis e a arte que é só tua e que pintou um outro eu, que não consigo mais ser.

E eu sigo o meu caminho. À beira do rio, onde jaz a tela. A tua tela. Que nunca foi verdadeiramente minha.

Texto de Joana Sousa

Fotografia de Marco A. Pires

Música: Between Two Lungs – Florence And The Machine

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Quem sou eu?

(ora aí está uma pergunta interessante da tua parte. Talvez interesseira, também. Mas certamente interessada)

De dia, uma executiva irrepreensível. Gosto do meu trabalho. Com ele ganho o dinheiro suficiente para gastar naquilo que me deixa feliz: copos, roupa, sapatos, malas.

Assumo a futilidade do meu ser sem qualquer preconceito. E os meus dois mundos. Mesmo quando estes se cruzam.

(Dois mundos?)

À noite, sou aquela que deixa homens

(e mulheres!)

loucos, excitados, por me verem em palco a realizar as suas fantasias.

Dançar. O meu corpo e a música em plena sintonia.

Considero-me uma mulher clássica. Sim, clássica.

A vida dupla é um clássico da história da humanidade, seja na forma do marido que tem esposa e amante; seja na forma da amante daquele que é amiga

(da esposa)

e também tem o seu próprio marido.

Um clássico, que adaptei à minha maneira. Sim, porque gosto muito de voltar para casa sozinha e dispenso ser esposa ou amante de alguém.

Prefiro chegar a casa, retirar maquilhagem, preparar o duche. Substituir os saltos agulha pelas pantufas com o Scooby Doo.

(E eis que agora toda a loucura e excitação à minha volta caiem por terra)

E deliciar-me com o silêncio. Sem telefones a tocar, ou as luzes do palco.

Sem os olhares lascivos. Eu, apenas eu.

A minha vida dupla conhece um terceiro termo, protagonizado igualmente por mim, onde me encontro comigo e posso finalmente adormecer e sossegar quem sou.


Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Paca

Música: Eyes on fire -  Blue Foundation

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