dor no (e de) olhar
- August 21st, 2010
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Nunca ele tinha pensado que a podia perder. Um dado adquirido, desde e para sempre. A vida só fazia sentido assim: a dele e a dela. Pelo menos para ele.
«Um dia levo-te a conhecer as ruas de Paris. Gostavas?»
Claro que ela gostava. Sonhava com Paris e as suas ruas movimentadas. Claro que ela gostava de partilhar esse momento com ele. Lado a lado.
Ele tentou. Disse que tentou. Aliás, naquele cenário triste e final, a única coisa de que se lembrava era do que tinha prometido. A viagem.
A casa estava vazia. Sim, havia móveis, objectos. Os dele. Mas a casa estava terrivelmente vazia. Fazia eco uma tristeza profunda de quem tinha perdido o sentido para a vida.
Ela? Ele? Quem perdeu, afinal?
Ela? Que desistiu de esperar pela viagem, pelo lado a lado?
Ele? Que nunca pensou ser possível amar e ignorar tanto e ao mesmo tempo aquela que apregoava como a sua razão de viver?
«Eu tentei. Fiz tudo.»
«Não fizeste – disse-lhe – mas isso agora pouco importa. O tempo não volta atrás. Lida com o momento. Procura-a, se é isso que queres.»
Ele olhou-me profundamente nos olhos, com os seus húmidos de dor. Senti-me tão abismada com a dimensão do seu sentir que me vi obrigada a olhar para baixo, a procurar um ponto de referência que me deixasse confortável.
Ele estendeu os braços. Abracei-o. Nada mais podíamos fazer. Ela não ia voltar. E não voltou, até hoje.
Texto de Joana Sousa
Fotografia de João Paca
Música: Secrets – One Republic

