Archive for August, 2010

dor no (e de) olhar

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Nunca ele tinha pensado que a podia perder. Um dado adquirido, desde e para sempre. A vida só fazia sentido assim: a dele e a dela. Pelo menos para ele.

«Um dia levo-te a conhecer as ruas de Paris. Gostavas?»

Claro que ela gostava. Sonhava com Paris e as suas ruas movimentadas. Claro que ela gostava de partilhar esse momento com ele. Lado a lado.

Ele tentou. Disse que tentou. Aliás, naquele cenário triste e final, a única coisa de que se lembrava era do que tinha prometido. A viagem.

A casa estava vazia. Sim, havia móveis, objectos. Os dele. Mas a casa estava terrivelmente vazia. Fazia eco uma tristeza profunda de quem tinha perdido o sentido para a vida.

Ela? Ele? Quem perdeu, afinal?

Ela? Que desistiu de esperar pela viagem, pelo lado a lado?

Ele? Que nunca pensou ser possível amar e ignorar tanto e ao mesmo tempo aquela que apregoava como a sua razão de viver?

«Eu tentei. Fiz tudo.»

«Não fizeste – disse-lhe – mas isso agora pouco importa. O tempo não volta atrás. Lida com o momento. Procura-a, se é isso que queres.»

Ele olhou-me profundamente nos olhos, com os seus húmidos de dor. Senti-me tão abismada com a dimensão do seu sentir que me vi obrigada a olhar para baixo, a procurar um ponto de referência que me deixasse confortável.

Ele estendeu os braços. Abracei-o. Nada mais podíamos fazer. Ela não ia voltar. E não voltou, até hoje.

Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Paca

Música: Secrets – One Republic

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it takes three to Tango

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Sempre gostei de te ver dançar. A sensualidade dos teus movimentos tem um efeito sufocante na minha respiração. Mas eu gosto que me sufoques, como só tu sabes.

Apetece-me tirar-te a camisa, rasga-la com as minhas próprias mãos e permitir que a dança continue. Tu e ela.

E eu, observadora atenta dos teus passos, qual predador que se aproxima cautelosamente da sua presa (na verdade, das duas presas) deixo que o calor percorra a minha alma.

Hoje sou eu quem vai dominar. Sou eu quem vai conduzir o tango dos três corpos que se querem e se desejam; que vibram, que trocam prazer sem fim.

O tango que também é das almas. Almas que buscam o acontecer da sua fantasia. A três.

Quem diria que os nossos caminhos se cruzariam desta forma tão prazeirosa? Que ambos (os três) nos iríamos embrulhar em suor ilustrado com pedidos de quem não se satisfaz facilmente? De quem quer mais?

Sempre gostei de te ver dançar. Tu e ela. A dançar em mim.

Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Paca

Música: Santa Maria – Gothan Project

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