Quentes e Boas
- September 22nd, 2010
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- A sério, devias acrescentar no teu currículo: especialista no caos! – disse C., enquanto deitava a colher ao gelado de doce de leite.
- Lá estás tu! Mas que fiz eu agora? Já não se pode desabafar? – retorquiu J., empurrando os óculos de sol para o seu devido lugar.
A esplanada estava agradável e as amigas de sempre estavam a meio da sua tertúlia semanal, desta vez dominada pelo tema «gavetas desarrumadas da J.»
- Admite, amiga. Não sabes arrumar as coisas. Atrapalhas-te com a confusão, empurras tudo para dentro da gaveta e depois fica sempre algo de fora.
A. é a mais velha do grupo. Vai sempre direitinha à verdade das coisas e não se perde com interlúdios poéticos.
- Não consigo olhá-lo nos olhos. Há ali um misto de dor, de vontade. Prefiro fingir que não estamos presentes um ao outro – disse J., enquanto terminava o seu gelado. – E pronto, mais um gelado que vai ficar eternamente alojado nas minhas ancas!
O riso foi geral.
- Amiga, mas isso tu podes tirar das ancas; ginásio, cirurgia… tens todo o meu apoio. Agora essa última gaveta mal amanhada e as outras entreabertas. Oh rapariga, isso fica para sempre se não tomares uma decisão – disse A.
- Se fica entreaberta… não é só porque a J. quer. É porque mais alguém não a quer fechar!
O empregado passou pela mesa para levantar a loiça suja. Pediram-lhe que trouxesse bebidas. A conversa ia durar. Não tanto tempo quanto as gavetas da J. para fechar definitivamente. Qual é a sua desculpa? Evitar a humidade? Alimentar um possível reencontro? Esconder o medo de compromisso?
- Amigas, deixemo-nos d’O Sexo e a Cidade. Estas conversas de raparigas não me levam a lado nenhum – disse J.
Sim, fica sempre tudo na mesma. Gavetas escancaradas até ao tecto.
E não é assim que preferes?
Texto de Joana Sousa
Fotografia de João Paca
Música: Secrets – you know that I’m no good – Amy Winehouse

