Archive for September, 2010

Quentes e Boas

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- A sério, devias acrescentar no teu currículo: especialista no caos! – disse C., enquanto deitava a colher ao gelado de doce de leite.

- Lá estás tu! Mas que fiz eu agora? Já não se pode desabafar? – retorquiu J., empurrando os óculos de sol para o seu devido lugar.

A esplanada estava agradável e as amigas de sempre estavam a meio da sua tertúlia semanal, desta vez dominada pelo tema «gavetas desarrumadas da J.»

- Admite, amiga. Não sabes arrumar as coisas. Atrapalhas-te com a confusão, empurras tudo para dentro da gaveta e depois fica sempre algo de fora.

A. é a mais velha do grupo. Vai sempre direitinha à verdade das coisas e não se perde com interlúdios poéticos.

- Não consigo olhá-lo nos olhos. Há ali um misto de dor, de vontade. Prefiro fingir que não estamos presentes um ao outro – disse J., enquanto terminava o seu gelado. – E pronto, mais um gelado que vai ficar eternamente alojado nas minhas ancas!

O riso foi geral.

- Amiga, mas isso tu podes tirar das ancas; ginásio, cirurgia… tens todo o meu apoio. Agora essa última gaveta mal amanhada e as outras entreabertas. Oh rapariga, isso fica para sempre se não tomares uma decisão – disse A.

- Se fica entreaberta… não é só porque a J. quer. É porque mais alguém não a quer fechar!

O empregado passou pela mesa para levantar a loiça suja. Pediram-lhe que trouxesse bebidas. A conversa ia durar. Não tanto tempo quanto as gavetas da J. para fechar definitivamente. Qual é a sua desculpa? Evitar a humidade? Alimentar um possível reencontro? Esconder o medo de compromisso?

- Amigas, deixemo-nos d’O Sexo e a Cidade. Estas conversas de raparigas não me levam a lado nenhum – disse J.

Sim, fica sempre tudo na mesma. Gavetas escancaradas até ao tecto.

E não é assim que preferes?

Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Paca

Música: Secrets – you know that I’m no good – Amy Winehouse

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a case (to be) closed

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Nunca se tinha desiludido tanto, a si mesma. Nunca tinha sentido aquele tremor de quem tinha pisado uma fronteira perigosa.

Sim. A química. Mas nunca assumida, até porque o jeito descontraído e bem humorado não permitia ver que a química existia. Estava ali, para ser vivida e saboreada, com a ajuda da sua eterna companheira (a física, para que conste).

- Desculpa, mas há muito que me apetecia fazer isto.

Não sabia ela que há muito que lhe apetecia fazer aquilo. Sim, ela queria. Mas não sabia. Não pensou ser possível.

- Eu? Não! – dizia, para se enganar a si própria, como quem come um chocolate às escondidas e até se desfaz da prata e da embalagem, para que não haja qualquer vestígio ou prova. Mas o sabor que tinha na sua boca não podia ser eliminado; as sensações de provar o que não é suposto… como eliminar isso? Onde está a tecla do delete?

Não dormiu nessa noite. O sabor do chocolate, a certeza de que não tinha sido um sonho,  permitiram a vivência de uma noite em branco, com dúvidas e questões e medos. De quem? Dos outros, sim. Mas de si. Como arrumar este assunto? Fechar o caso, carimbá-lo e despachá-lo para o arquivo morto?

- Não estamos a viver uma relação, sabes disso. Tu estás em crise, eu estou em crise. E ambos tentamos sobreviver a isso. Sim, somos humanos. Podemos manter a chama. Mas não devemos.

Ele nunca a quis ouvir. Preferia senti-la, até ao momento em que ela lhe escorregava das mãos.

Ainda hoje a chama está por extinguir. Ainda hoje ambos passam noites em branco, a desejar que as coisas não tivessem que ser assim.

Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Paca

Música: The Sweetest Taboo – Sade

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