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…tenho um emprego e uma vida normal»
A verdade é que não sou quem tu queres que eu seja. E a palavra normal não se aplica, de todo, à minha pessoa. É como ter um tacho e uma dúzia de tampas que simplesmente não encaixam. É como enfiar o Rossio na Rua da Betesga. Ou querer vestir um S, quando o ideal é um L.
Como dizem os ingleses, it doesn’t fit!
Por mais que queiras e que lutes, sustenhas a respiração, encolhas o peito, as costas, simplesmente não serve!
E com a camisola atravessada, baixas os braços, como que a dizer
- E agora?
Não era suposto vestir isto e passear-me com esta camisola feita só a pensar em mim? E que sempre ambicionou, desde que os fios se entrelaçaram na fábrica, ser vestida por mim (e apenas por mim)?
Se calhar, era. Se calhar, não.
E agora? Tenho a camisola meio vestida, meio despida. E se não fosse cá por aquelas coisas do pudor, até te pedia para me ajudares a vestir (despir?). Mas tenho cá para mim os meus limites. E hoje não vesti a minha melhor roupa interior. Tenho receio que percebas que afinal não sou uma mulher sofisticada e não uso rendas. Gosto de algodão. Porque é simples, prático e não exige grandes tratamentos. Já eu, sou complexa, pouco prática e exijo ser tratada que nem uma princesa (sim, incomodam-me as ervilhas debaixo do colchão).
Por mais que eu queira, esta camisola não serve. Importas-te de me fazer chegar outra, dois números acima? Obrigada.
«O teu bem faz-me tão mal!»
Texto de Joana Sousa
Fotografia de João Paca
Música: mal por mal – Deolinda
Nota: o título foi «roubado» à música da Deolinda. Obrigada pela inspiração!

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