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Quem sou eu?

(ora aí está uma pergunta interessante da tua parte. Talvez interesseira, também. Mas certamente interessada)

De dia, uma executiva irrepreensível. Gosto do meu trabalho. Com ele ganho o dinheiro suficiente para gastar naquilo que me deixa feliz: copos, roupa, sapatos, malas.

Assumo a futilidade do meu ser sem qualquer preconceito. E os meus dois mundos. Mesmo quando estes se cruzam.

(Dois mundos?)

À noite, sou aquela que deixa homens

(e mulheres!)

loucos, excitados, por me verem em palco a realizar as suas fantasias.

Dançar. O meu corpo e a música em plena sintonia.

Considero-me uma mulher clássica. Sim, clássica.

A vida dupla é um clássico da história da humanidade, seja na forma do marido que tem esposa e amante; seja na forma da amante daquele que é amiga

(da esposa)

e também tem o seu próprio marido.

Um clássico, que adaptei à minha maneira. Sim, porque gosto muito de voltar para casa sozinha e dispenso ser esposa ou amante de alguém.

Prefiro chegar a casa, retirar maquilhagem, preparar o duche. Substituir os saltos agulha pelas pantufas com o Scooby Doo.

(E eis que agora toda a loucura e excitação à minha volta caiem por terra)

E deliciar-me com o silêncio. Sem telefones a tocar, ou as luzes do palco.

Sem os olhares lascivos. Eu, apenas eu.

A minha vida dupla conhece um terceiro termo, protagonizado igualmente por mim, onde me encontro comigo e posso finalmente adormecer e sossegar quem sou.


Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Paca

Música: Eyes on fire -  Blue Foundation

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