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Guardo aquele momento cristalizado na minha memória. Como preferia não o ter vivido. Não ter trocado as palavras que troquei contigo.
Não seria capaz de o viver de novo. De te dizer o que disse. Por isso decidi fixá-lo num dia e numa hora que não quero lembrar. Como uma tela que se pintou um dia e que fica ali, sem tempo, fixa numa parede.
Preferia tê-la fixa, no fundo de um lago, para que a sua imagem ficasse turva e eu pudesse esquecer as tais palavras. Aquelas que trocámos e com as quais nos magoámos. E ferimos o que tínhamos construído.
A tela outrora pintada jaz agora no fundo de um qualquer lago de emoções; sempre que a olho, consigo vê-la de forma diferente, seguindo a ondulação que a água (o tempo) lhe provoca. Sempre diferente, mas sempre certeira na dor, a tela ali vai continuar.
E tu segues o teu caminho. Levas contigo o pote das tintas, os pincéis e a arte que é só tua e que pintou um outro eu, que não consigo mais ser.
E eu sigo o meu caminho. À beira do rio, onde jaz a tela. A tua tela. Que nunca foi verdadeiramente minha.
Texto de Joana Sousa
Fotografia de Marco A. Pires
Música: Between Two Lungs – Florence And The Machine

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