podia classificar isto como o inesperado na sua acepção mais pura. uma coisa que fica entre a probabilidade e a possibilidade. e a necessidade, sim. ainda há dias o «precisar» foi sentido e consentido. não faz mal, acontece – pensou ele, completamente envolvido naquilo que já era antes de ele saber.  ignorava a verdade das coisas, como quem caminha descalço sem saber que vai encontrar vidro. a graça da ignorância não tem nada de engraçado. mas é graciosa, como se nos oferecesse flores e velasse a realidade com transparências opacas. baças, sem brilho. e não fez mal, aconteceu. ele deu um passo em frente, pisando o chão incerto, que rapidamente ficou marcado pela sua presença. vincou o seu ser na realidade, sem metafísicas aparentes, ostentando o pragmatismo de quem sabe o que quer. na cozinha a água estava a ferver. mentiras, dizia ela. a água estava a ferver mentiras. ele não quis saber. talvez nem tenha ouvido o reparo.

 

olhar de João Paca | palavras de Joana Sousa

para acompanhar com Cults | You know what I mean

 

 

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